Do Buriti ao BRB: a herança bilionária que ninguém quer assumir
Entre um passivo de R$ 5,5 bilhões apontado nas contas do DF e a necessidade de um socorro bilionário ao BRB, antigos aliados agora disputam quem ficará mais longe da fatura
Foto: Ilustração Inteligência Artificial O Distrito Federal vive uma crise que vai muito além da disputa entre aliados que agora ocupam lados opostos da política local. Os números que surgiram nas últimas semanas colocam sob pressão o grupo político que governa Brasília desde 2019.
De um lado, segundo o jornal Estadão, o Tribunal de Contas do Distrito Federal identificou um passivo de aproximadamente R$ 5,5 bilhões nas contas públicas deixadas ao final da gestão de Ibaneis Rocha. Do outro, o Governo do Distrito Federal precisou construir uma operação para viabilizar uma capitalização de cerca de R$ 6,5 bilhões no BRB após a crise envolvendo o Banco Master.
Embora os episódios sejam tratados separadamente, ambos carregam um elemento em comum: aconteceram sob a administração do mesmo grupo político que assumiu o comando do DF há mais de sete anos.
A auditoria do TCDF aponta um conjunto de problemas fiscais que inclui déficit primário, despesas acumuladas de exercícios anteriores, restos a pagar e pressões sobre o sistema previdenciário dos servidores públicos. Os técnicos descrevem uma dinâmica de adiamento de despesas que permitiu manter o funcionamento da máquina pública enquanto obrigações financeiras eram empurradas para os exercícios seguintes.
Ao mesmo tempo, o BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal e frequentemente apresentado como uma das principais vitrines da gestão iniciada em 2019, tornou-se protagonista de uma das maiores crises financeiras da história recente da instituição. O banco agora depende de uma robusta operação de capitalização para recompor seus indicadores e preservar sua estabilidade.
O que chama atenção é que os dois problemas surgem praticamente ao mesmo tempo e produzem um efeito político difícil de ignorar. Enquanto o TCDF discute um passivo de R$ 5,5 bilhões nas contas públicas, o governo busca uma solução que pode movimentar outros R$ 6,5 bilhões para sustentar o BRB. Somados, os valores ultrapassam a marca dos R$ 12 bilhões.
Nos últimos dias, a governadora Celina Leão evitou atribuir responsabilidades antecipadas a Ibaneis Rocha pela situação do BRB. A cautela jurídica, no entanto, não elimina um fato político evidente: tanto a situação fiscal apontada pelo Tribunal de Contas quanto a crise do banco ocorreram dentro de um mesmo ciclo administrativo.
A tentativa de transformar o debate em uma disputa entre atual e ex-governador encontra um obstáculo simples. Durante anos, Celina Leão e Ibaneis Rocha caminharam no mesmo projeto político, participaram das mesmas decisões estratégicas e defenderam publicamente os mesmos resultados de governo.
Por isso, a discussão que começa a ganhar força em Brasília não é apenas sobre quem errou. É sobre como um governo que apresentou sucessivos discursos de equilíbrio fiscal e fortalecimento do BRB chegou ao ponto de enfrentar, simultaneamente, um questionamento bilionário nas contas públicas e a necessidade de um socorro financeiro histórico ao banco estatal.
O julgamento das contas pelo TCDF e os desdobramentos da crise do BRB ainda terão capítulos importantes pela frente. Mas uma conclusão já parece inevitável: independentemente de quem ocupe hoje o Palácio do Buriti, os dois episódios carregam a marca de um mesmo grupo político.
E, no fim das contas, a pergunta continua sem resposta: como Brasília chegou até aqui?




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