Trump chega à China sob tensão global e tenta reabrir diálogo com Xi em meio a disputas comerciais e guerra no Irã
Visita do presidente dos EUA coloca comércio, tecnologia, petróleo e Taiwan no centro de uma das reuniões mais delicadas entre Washington e Pequim nos últimos anos
Foto: Reprodução CNN Donald Trump desembarcou em Pequim nesta quarta-feira (14) cercado por empresários bilionários, protocolos de Estado e uma lista de crises internacionais que transformaram sua visita à China em uma das mais sensíveis de seu novo mandato. Recebido com honras pelo vice-presidente chinês Han Zheng, o presidente dos Estados Unidos inicia dois dias de reuniões com Xi Jinping em um momento de tensão geopolítica, marcado pela guerra no Irã, pela disputa tecnológica entre as duas maiores economias do mundo e pelo impasse em torno de Taiwan.
A chegada de Trump à capital chinesa ocorre em um cenário diferente do de sua primeira visita oficial ao país, em 2017. Desde então, a China ampliou sua influência econômica, militar e tecnológica, enquanto os Estados Unidos endureceram barreiras comerciais e restrições à exportação de chips e tecnologias estratégicas. No meio desse tabuleiro, a guerra no Oriente Médio agravou a instabilidade global e pressionou mercados, governos e cadeias de abastecimento.
Bandeiras dos dois países, banda marcial e palavras de boas-vindas marcaram a recepção ao presidente americano, que apareceu ao lado do filho Eric Trump e de alguns dos homens mais poderosos do setor de tecnologia dos Estados Unidos. Entre eles estavam Elon Musk, da Tesla, Jensen Huang, da Nvidia, além de executivos ligados à Apple, BlackRock e Boeing.
A presença desse grupo empresarial deixou claro que o comércio e a tecnologia estarão no centro das negociações. Antes mesmo de pousar, Trump afirmou que pretende pedir a Xi Jinping que “abra” ainda mais a economia chinesa para empresas americanas. A declaração sinaliza uma tentativa de reduzir as barreiras impostas nos últimos anos e recuperar espaço para empresas dos EUA dentro do mercado chinês.
Números e dimensão da disputa
O comércio bilateral entre os dois países caiu significativamente desde o auge das guerras tarifárias. Em 2022 o fluxo comercial entre Washington e Pequim ultrapassava US$ 690 bilhões. No ano passado, esse volume recuou para cerca de US$ 414 bilhões. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam importando muito mais produtos chineses do que conseguem exportar para a China.
O avanço da inteligência artificial transformou semicondutores e minerais estratégicos em instrumentos de poder global, outro debate que marca o encontro, indo além da economia tradicional. Os Estados Unidos ampliaram restrições para impedir que empresas chinesas tenham acesso a tecnologias consideradas sensíveis, especialmente chips avançados usados em IA e sistemas militares. Pequim, por sua vez, tem usado seu domínio sobre metais de terras raras como ferramenta de pressão econômica, lembrando ao Ocidente que boa parte da indústria tecnológica mundial ainda depende da cadeia produtiva chinesa.
Tensões geopolíticas
Nos bastidores, diplomatas dos dois países reconhecem que a guerra entre Israel, Estados Unidos e Irã também pesa sobre as conversas. A China é uma das principais compradoras de petróleo iraniano e acompanha com preocupação os impactos da crise no Estreito de Ormuz, rota vital para o comércio global de energia. Com navios enfrentando dificuldades para circular na região, os preços do petróleo voltaram a subir e aumentaram o temor de desaceleração econômica internacional.
Trump afirmou antes da viagem que terá uma “longa conversa” com Xi sobre o Irã, embora tenha dito que Washington “não precisa de ajuda” para lidar com o conflito. Ainda assim, cresce a pressão americana para que Pequim use sua influência política e econômica sobre Teerã na tentativa de reduzir as tensões.
Outro tema inevitável será Taiwan. A ilha democrática segue como um dos pontos mais explosivos da relação entre China e Estados Unidos. Nos últimos meses, o governo Trump aprovou novos acordos militares para Taipé, incluindo um pacote bilionário de armamentos, ao mesmo tempo em que evitou dar garantias explícitas sobre uma eventual defesa militar da ilha em caso de ataque chinês.
A poucos dias da reunião, senadores americanos enviaram uma carta à Casa Branca pedindo que Trump reafirme publicamente o apoio dos EUA a Taiwan durante o encontro com Xi Jinping.
Na agenda oficial Trump participará de cerimônias de recepção no Grande Salão do Povo, reuniões bilaterais, banquete de Estado e encontros reservados com Xi Jinping no complexo de Zhongnanhai, sede do poder político chinês.




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