Com Irã e Emirados Árabes no bloco, Brics pede calma no Oriente Médio

Com Irã e Emirados Árabes no bloco, Brics pede calma no Oriente Médio

Declaração conjunta da cúpula em Nova Delhi defende maior participação do Brasil no Conselho de Segurança e avanço de pagamentos em moedas locais


Com Irã e Emirados Árabes no bloco, Brics pede calma no Oriente Médio Foto: India's Ministry of External Affairs/Handout/REUTERS



Os líderes e representantes dos países do Brics manifestaram “profunda preocupação” com o aumento das tensões no Oriente Médio e criticaram a adoção de tarifas unilaterais no comércio internacional durante a cúpula realizada neste fim de semana em Nova Delhi, na Índia.

A posição está registrada na declaração final do encontro, intitulada “Construindo para a Resiliência, Inovação, Cooperação e Sustentabilidade”, divulgada neste sábado (12).

O documento também reforça a defesa de uma reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e destaca o apoio da China e da Rússia às aspirações do Brasil e da Índia por uma participação mais relevante na organização.

Brics pede contenção diante da crise no Oriente Médio

Uma das principais expectativas da cúpula era a posição que o Brics adotaria diante do agravamento do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.

O texto final, porém, optou por uma formulação diplomática e não citou diretamente os países envolvidos. No documento, os integrantes afirmaram estar profundamente preocupados com a escalada das tensões no Oriente Médio e defenderam “máxima contenção” para evitar o agravamento da situação.

A declaração também pede que os países envolvidos evitem ações capazes de ampliar ainda mais a crise.

A estratégia de não mencionar nominalmente os governos envolvidos facilitou a construção de consenso entre os integrantes do grupo, que reúne países com posições diferentes sobre o conflito.

A atual guerra no Oriente Médio começou em fevereiro, quando Estados Unidos e Israel realizaram ataques contra o Irã sob a justificativa de impedir o desenvolvimento de armas nucleares. Teerã nega a acusação.

Em resposta, o Irã realizou ataques contra os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, dois países alinhados aos Estados Unidos e integrantes do Brics.

Brasil ganha apoio para ampliar espaço na ONU

Outro ponto de destaque da declaração foi a reforma do Conselho de Segurança da ONU.

O Brics defendeu mudanças no principal órgão internacional responsável pela manutenção da paz e da segurança, com o objetivo de ampliar a representação dos países em desenvolvimento e tornar o organismo mais representativo e eficiente.

Atualmente, o Conselho de Segurança possui 15 integrantes. Apenas cinco têm assento permanente e poder de veto: Estados Unidos, China, Rússia, Reino Unido e França.

O Brasil reivindica há décadas um lugar permanente no órgão.

Na declaração de Nova Delhi, China e Rússia reiteraram apoio às pretensões brasileiras e indianas de desempenhar um papel maior dentro das Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança.

O documento, no entanto, não afirma diretamente que Brasil ou Índia deverão ser incorporados como membros permanentes.

Críticas ao tarifaço

A declaração também traz críticas ao aumento de barreiras comerciais e à adoção de tarifas unilaterais.

Os países signatários afirmaram estar preocupados com medidas tarifárias e não tarifárias que, segundo eles, distorcem o comércio internacional e entram em conflito com as regras da Organização Mundial do Comércio.

Os Estados Unidos não são citados nominalmente na declaração, nem aparece o nome do presidente Donald Trump.

A ausência de uma referência direta ocorre apesar de Brasil, China e Índia estarem entre os países afetados pelas políticas tarifárias adotadas pelo governo americano nos últimos anos.

Moedas locais no comércio

Outro trecho do documento trata de mecanismos de pagamentos internacionais.

Os integrantes do Brics afirmaram que avançam na busca por soluções práticas para facilitar pagamentos transfronteiriços utilizando moedas locais.

Apesar disso, a declaração não apresenta a criação de uma moeda comum do Brics e tampouco estabelece uma proposta para substituir o dólar nas transações internacionais.

A ideia é ampliar alternativas para pagamentos entre os países do grupo e reduzir obstáculos às transações comerciais.

Combate à pobreza e desigualdade

A declaração também coloca a redução da pobreza e das desigualdades entre as prioridades do grupo.

Os países classificaram a erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, especialmente da pobreza extrema, como um dos maiores desafios globais e uma condição necessária para o desenvolvimento sustentável.

O documento ainda registra uma proposta apresentada pelo Brasil e pela África do Sul para a criação de um painel internacional dedicado ao tema da desigualdade.

Brics reúne 11 países

O Brics atualmente é formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

Juntos, os países representam cerca de 39% da economia mundial, 48,5% da população do planeta e 23% do comércio global.

A cúpula de Nova Delhi reuniu líderes como o primeiro-ministro indiano Narendra Modi e os presidentes Xi Jinping, da China; Vladimir Putin, da Rússia; Cyril Ramaphosa, da África do Sul; e Masoud Pezeshkian, do Irã.

O Brasil foi representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

O encontro ocorre um ano depois de o Brasil exercer a presidência do grupo. Em 2025, a cúpula foi realizada no Rio de Janeiro.




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