Eleições 2026: candidaturas de autistas aumentam mais de cinco vezes

Levantamento do TSE mostra salto de 13 para 70 candidaturas de pessoas que se declaram autistas; crescimento ocorre enquanto número geral de candidaturas diminui


Eleições 2026: candidaturas de autistas aumentam mais de cinco vezes Foto: Mário Agra/Câmara dos Deputados


O número de pessoas que se declaram autistas entre os candidatos nas eleições de 2026 cresceu mais de cinco vezes em comparação com 2022. Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que foram registrados 70 pedidos de candidatura de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), contra 13 na eleição anterior.

A expansão das candidaturas ocorre em sentido oposto ao movimento geral registrado pela Justiça Eleitoral. O número total de pedidos de registro caiu de 29.262, em 2022, para 20.829 neste ano. A base do TSE ainda pode sofrer alterações durante o processo de atualização dos dados.

Entre os 70 candidatos autistas, 39 disputam vagas de deputado estadual e 22 concorrem à Câmara dos Deputados. Outros cinco são candidatos à Câmara Legislativa do Distrito Federal, três disputam o cargo de vice-governador e um aparece como primeiro suplente.

O crescimento amplia a presença política de uma parcela da população que, historicamente, teve pouca representação direta nas disputas eleitorais.

Candidaturas refletem maior visibilidade

Segundo o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista é uma condição do desenvolvimento neurológico que pode influenciar a comunicação, as interações sociais e os comportamentos, com diferentes níveis de suporte e autonomia.

A terapeuta Simone Alli Chair, presidenta da Associação Vozes Atípicas (AVA) e ativista pelos direitos das pessoas com deficiência, avalia que o aumento das candidaturas está relacionado à maior visibilidade do autismo na sociedade.

Ela destaca também que o crescimento no número de diagnósticos não significa necessariamente que existam hoje mais pessoas autistas, mas que muitos casos que antes não eram identificados passaram a ser reconhecidos.

Para Simone, essa maior visibilidade também influencia o ambiente político, fazendo com que mais pessoas do segmento se sintam estimuladas a disputar eleições.

A ativista, no entanto, faz um alerta sobre o interesse de candidatos e partidos pela pauta da deficiência. Segundo ela, o aumento da presença do tema nas campanhas não significa necessariamente compromisso com políticas públicas de qualidade.

Ela critica candidatos que, segundo sua avaliação, utilizam a causa principalmente como estratégia eleitoral e defende que os eleitores analisem o histórico dos postulantes e a consistência das propostas apresentadas.

Representação das pessoas com deficiência também cresce

Além dos candidatos autistas, o TSE registra 524 candidaturas de pessoas que declararam algum tipo de deficiência.

Desse total, 208 candidatos informaram ter deficiência física, 112 deficiência visual, 59 deficiência auditiva e 145 declararam outras condições, categoria que inclui o autismo.

Esses candidatos disputarão votos de um eleitorado de aproximadamente 158,74 milhões de pessoas no primeiro turno, marcado para 4 de outubro.

Entre os eleitores, cerca de 1,97 milhão possuem algum tipo de deficiência. O número representa crescimento de aproximadamente 42% em relação a 2022, quando eram cerca de 1,38 milhão.

O aumento da participação de pessoas com deficiência tanto como candidatas quanto como eleitoras reforça uma transformação gradual do perfil de representação política no país.

Especialistas apontam estratégia de segmentação

Para o cientista político João Francisco Meira, sócio-fundador do Instituto Vox Populi, o avanço das candidaturas relacionadas à neurodiversidade e aos direitos das pessoas com deficiência também pode ser compreendido como parte de uma estratégia de segmentação eleitoral.

Segundo ele, principalmente nas eleições proporcionais, nas quais são escolhidos deputados federais, estaduais e distritais, candidatos precisam encontrar formas de se diferenciar em um cenário com grande quantidade de concorrentes.

Nesse contexto, pautas específicas podem funcionar como uma forma de aproximação com grupos determinados do eleitorado.

Meira afirma que um candidato pode conquistar a atenção de um eleitor que não necessariamente concordaria com todas as suas posições políticas, mas que se identifica com uma determinada pauta ou proposta.

Para o cientista político, esse processo faz parte da própria dinâmica das campanhas, nas quais novos temas ganham relevância à medida que mudanças sociais e novas demandas passam a ocupar espaço na agenda pública.

Mais representação, mas também cobrança

O crescimento das candidaturas de pessoas autistas e de outros grupos de pessoas com deficiência aumenta a presença dessas pautas no debate eleitoral, mas também coloca um desafio para os próprios candidatos.

Além da representatividade, organizações que atuam na área cobram propostas concretas para saúde, educação, acessibilidade, trabalho, assistência social e inclusão.

A eleição de representantes diretamente ligados a esses grupos pode ampliar a discussão dentro dos parlamentos, mas a presença política também será acompanhada pela capacidade dos eleitos de transformar reivindicações em políticas públicas efetivas.

Com 70 candidatos autistas registrados para a disputa de 2026, o número ainda é pequeno diante do universo total de candidaturas, mas representa uma mudança expressiva em relação à eleição de 2022 e sinaliza que a pauta da neurodiversidade ganhou espaço no cenário político brasileiro.

Fonte: Agência Brasil

Foto: Reprodução

Tags: Eleições 2026, autismo, TEA, pessoas com deficiência, candidatos autistas, TSE, política, representatividade, inclusão, neurodiversidade.




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