Alerta ignorado? BRB foi avisado sobre descontos suspeitos meses antes da Operação Juro Zero, aponta reportagem
Caso amplia pressão sobre o legado da gestão Ibaneis Rocha e levanta questionamentos sobre a fiscalização de operações envolvendo servidores públicos do Distrito Federal
Fotos: Marcelo Camargo - Joédson Alves - Agência Brasil A crise que envolve o Banco de Brasília (BRB) ganhou um novo capítulo. Reportagem publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo revelou que o banco público já havia sido alertado pelo Ministério Público sobre suspeitas de descontos irregulares aplicados nos contracheques de servidores do Distrito Federal cerca de seis meses antes da deflagração da Operação Juro Zero.
A informação reforça os questionamentos sobre a atuação dos órgãos responsáveis pela fiscalização das operações e amplia o desgaste político em torno do legado da gestão do ex-governador Ibaneis Rocha, período em que foram editadas as normas que deram origem ao modelo hoje investigado.
Segundo o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), o esquema teria sido estruturado após a publicação de um decreto do Governo do Distrito Federal, em agosto de 2024, assinado durante a administração Ibaneis Rocha. A norma criou uma modalidade de desconto em folha destinada à antecipação salarial apresentada como operação "sem juros".
Dias depois, o PicPay formalizou o interesse em operar a folha de pagamento dos servidores distritais. O contrato passou a ser alvo de investigações após surgirem indícios de que, apesar da propaganda de crédito sem juros, valores eram descontados dos contracheques sob a rubrica de "taxas".
O episódio também entrou na mira da CPMI do INSS depois que vieram à tona informações de que um escritório que leva o nome de Ibaneis Rocha recebeu R$ 1 milhão do grupo J&F poucos dias após a autorização para que o PicPay atuasse nessa modalidade de crédito junto aos servidores do DF. O ex-governador nega irregularidades.
TCDF já havia apontado inconsistências
Antes mesmo da operação do Ministério Público, o Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) também identificou indícios de irregularidades.
Segundo o órgão, entre agosto de 2024 e agosto de 2025 mais de R$ 80 milhões foram descontados dos contracheques de servidores públicos sob a classificação de "taxas". Para os auditores, independentemente da nomenclatura utilizada, a cobrança possuía natureza econômica equivalente à incidência de juros. Após os apontamentos, o contrato foi suspenso.
Operação amplia desgaste do BRB
A Operação Juro Zero cumpriu mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, São Paulo e Paraná e bloqueou cerca de R$ 90 milhões em ativos ligados às empresas e entidades investigadas.
Entre os principais alvos estão o ex-secretário de Economia do DF, Ney Ferraz; o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, preso desde abril em outra investigação envolvendo operações com o Banco Master; além de dirigentes do PicPay e representantes da Associação dos Servidores do Distrito Federal (ASDF).
Os investigadores apuram suspeitas de corrupção, organização criminosa, lavagem de dinheiro, publicidade enganosa, inserção irregular de dados em sistemas públicos e crimes contra a economia popular.
Perguntas que permanecem:
A revelação de que o BRB teria sido alertado meses antes da operação levanta novas dúvidas sobre a condução do caso. Se havia informações indicando possíveis irregularidades, por que as operações continuaram? Houve providências internas? Quem foi comunicado? E por que os descontos seguiram sendo realizados enquanto servidores continuavam tendo valores retirados de seus contracheques?
As investigações seguem em andamento e deverão esclarecer a responsabilidade de cada um dos envolvidos.
*Com informações do jornal O Estado de S. Paulo e do Hora do Povo.




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