Alemanha: partido de extrema direita tem vitória estadual histórica
Partido de extrema direita alcança cerca de 44% dos votos e registra maior desempenho de sua história no estado; resultado não garante, porém, o controle do governo regional
Foto: Annegret Hilse/Reuters A Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu as eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, no leste do país, realizadas neste domingo (6), e alcançou um resultado histórico para a extrema direita alemã. A legenda recebeu cerca de 44% dos votos, de acordo com os resultados parciais da apuração.
O desempenho coloca a AfD diante da possibilidade de conquistar o governo de um estado alemão pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A vitória nas urnas, entretanto, não significa que o partido terá automaticamente o controle do governo regional.
A formação da administração dependerá da composição do Parlamento estadual e da capacidade da legenda de construir uma maioria. Os principais partidos alemães mantêm a política de não formar coalizões com a AfD.
Por isso, o líder estadual da sigla, Ulrich Siegmund, apesar do resultado expressivo, ainda não pode ser considerado futuro primeiro-ministro da Saxônia-Anhalt, cargo equivalente ao de governador no Brasil.
Resultado representa derrota para Friedrich Merz
A votação também representa um importante revés para o chanceler Friedrich Merz e sua coalizão conservadora. A CDU, partido liderado por Merz, terminou muito atrás da AfD na disputa estadual.
O resultado ocorre em meio ao desgaste do governo federal. Uma pesquisa da emissora ARD apontou que 87% dos eleitores da Saxônia-Anhalt estavam insatisfeitos com a administração nacional.
Para o economista Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, o resultado deve ser interpretado principalmente como uma rejeição ao governo de Merz.
O chanceler prometeu recuperar a economia alemã por meio de reformas favoráveis às empresas e aumento de investimentos, mas enfrenta queda na popularidade e críticas sobre a condução de seu governo.
AfD transforma eleição estadual em demonstração nacional
Após o resultado, Ulrich Siegmund afirmou que a legenda havia feito história e apresentou a vitória como um passo para ampliar a força da AfD nas eleições federais previstas para 2029.
O partido vem crescendo especialmente no leste da Alemanha, região que fazia parte da antiga Alemanha Oriental. A Saxônia-Anhalt tem pouco mais de 2 milhões de habitantes e é considerada uma das áreas de maior força eleitoral da AfD.
Criada em 2013, a legenda também avançou em outras eleições estaduais e atualmente aparece na liderança ou próxima dela em pesquisas de intenção de voto para uma eventual disputa nacional.
A votação deste domingo, no entanto, foi exclusivamente estadual e não altera a composição do governo federal alemão.
Imigração é prioridade da legenda
A principal bandeira da AfD é o endurecimento das políticas de imigração. O partido defende regras mais rígidas para entrada e permanência de estrangeiros, aumento das deportações e uma política chamada de “remigração”, termo usado pela legenda para defender o retorno de imigrantes aos países de origem.
A sigla também quer promover mudanças nas políticas de integração e adotar medidas mais duras para pessoas que solicitam asilo.
Na educação, o partido defende alterações no modelo de ensino, incluindo a possibilidade de educação domiciliar e a separação de crianças refugiadas em turmas específicas.
A AfD também propõe mudanças na política energética alemã, incluindo maior utilização de combustíveis fósseis e retomada da energia nuclear, além de uma redução do papel das emissoras públicas.
Aproximação com a Rússia e críticas à União Europeia
Na política externa, a AfD defende uma aproximação com a Rússia, o fim das sanções contra Moscou e a redução do apoio alemão à Ucrânia.
O partido também é crítico à União Europeia e defende que parte dos poderes hoje concentrados no bloco seja devolvida aos Estados nacionais.
O crescimento da legenda ocorre em um país no qual os partidos tradicionais mantêm forte resistência a alianças com grupos de extrema direita em razão da memória do nazismo e do histórico político alemão.
A AfD rejeita as acusações de extremismo e afirma que seus críticos tentam deslegitimar milhões de eleitores.
O desafio agora é formar governo
Apesar da vitória, a principal incógnita será a formação de uma maioria no Parlamento estadual.
O pequeno partido Aliança de Sahra Wagenknecht (BSW) chegou a defender a possibilidade de um governo liderado por uma figura independente, com maiorias variáveis, inclusive com eventual apoio da AfD em determinadas votações.
Siegmund rejeitou a proposta e afirmou que a legenda não aceitará acordos que impeçam a implementação de seu programa.
Com os demais partidos descartando uma coalizão com a AfD, os conservadores deverão buscar alianças alternativas para formar o governo.
O resultado, portanto, produz dois efeitos simultâneos: a AfD sai fortalecida eleitoralmente e os partidos tradicionais passam a enfrentar uma situação cada vez mais difícil para impedir que o avanço da extrema direita se transforme em poder institucional.
*Com informações do g1 e Reuters




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